domingo, 5 de março de 2017

No teu deserto



Título: No teu deserto
Autor: Miguel Sousa Tavares
Editora: Oficina do Livro
Nº de páginas: 125


SINOPSE

No teu deserto aparece no site da Wook como romance, o mesmo acontecendo no site da FNAC. Segundo julgo saber, Miguel Sousa Tavares (MST) classifica-o como um “quase romance”. Na minha opinião, no entanto, este livro consiste mais numa crónica de viagem que MST fez pelo deserto do Sahara durante quarenta dias em 1987 acompanhado por Cláudia, quinze anos mais nova que MST nessa altura.

Passados 20 anos, MST escreve sobre essa viagem deixando-nos perceber o que ele e Cláudia sentiram e como partilharam os múltiplos desafios, obstáculos e peripécias próprios de um destino tão inóspito quanto um deserto pode ser, e como isso os marcou indelevelmente.


AS MINHAS OBSERVAÇÕES

Li este livro pela primeira vez em 2009 logo após a sua primeira edição pela Oficina do Livro. Recentemente, ao ler Não se encontra o que se procura, também de MST e sobre o qual escrevi aqui, despertou em mim o desejo de reler No teu deserto. Penso que, por si só, este já é um sinal muito positivo acerca do livro – quando sentimos vontade de reler um livro é porque encontramos nesse livro algo que nos marcou e ao qual precisamos voltar.

No teu deserto é um livro de olhares – o olhar de MST sobre o que vê na viagem, o seu olhar sobre Cláudia e o seu olhar sobre si mesmo. A dada altura encontramos estas palavras «A terra pertence ao seu dono, mas a paisagem pertence a quem a sabe olhar. E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso.»

Penso que este livro será apreciado por quem gosta particularmente de viajar, mas não só. De facto, encontramos algumas frases que são uma delícia e que explicam o facto de ter relido este livro na tarde deste domingo, 5 de março:

«A maior parte do tempo, porém, o que nós partilhávamos era o silêncio. E isso eu aprendi contigo, porque não sabia. Para mim, o silêncio era sinal de distância, de mal-estar, de desentendimento. Ao princípio, quando ficávamos calados muito tempo, eu sentia-me inquieta, desconfortável, e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passar entre nós.
Um dia tu disseste-me:
- Cláudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.»

«Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.»

«Tu falavas pouco e essa era uma das coisas de que eu gostava em ti. Quando tudo era bonito de mais ou duro de mais, tu ficavas calada a olhar silenciosamente. Falámos sobre isso uma vez, e eu disse-te que a vida me tinha ensinado que fácil era o ruído, as conversas sem sentido, a banalidade das palavras ditas sem necessidade alguma. De nós os dois, tu eras, sem dúvida alguma, a mais calma, a mais feliz tranquilamente. A mais atenta, a mais disponível para o vazio e o silêncio.»

«Às vezes, lá onde eu moro, fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto e oiço o tempo a passar, mas não me angustia mais: eu sei que é justo e que tudo o resto é falso.»

«Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar. Em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo a seus pés, não aguentam nem um dia de solidão.»

Crónica de uma morte anunciada



Título: Crónica de uma morte anunciada
Autor: Gabriel Garcia Marquez
Editora: D. Quixote
Nº de páginas: 107


SINOPSE

Vítima da denúncia falaciosa de uma mulher repudiada na noite de núpcias, o jovem Santiago Nasar foi condenado à morte pelos irmãos da sua hipotética amante, como forma de vingar publicamente a sua honra ultrajada e sob o olhar cúmplice ou impotente da população expectante de uma aldeia colombiana: é esta a história verídica que serve de base a este romance, e que, logo nas suas primeiras linhas, é enunciada.


AS MINHAS OBSERVAÇÕES

Já fazia algum tempo que estava para ler qualquer coisa de Gabriel Garcia Marquez (GGM). Por duas razões: primeiro, porque nunca tinha lido nada deste escritor (esta será sempre uma razão válida para se querer ler algo de um escritor que ainda não se conhece) e, segundo, porque, durante a minha vida de leitor, sempre vivi com a sensação de que não poderia passar ao lado de GGM. Isto é, eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, a sua escrita me encontraria. Uso esta expressão «a sua escrita me encontraria», pois acredito que quando levamos a leitura a sério são mais as vezes que a escrita de alguém e os seus livros nos encontram do que o contrário.

Não posso deixar de referir que a leitura de Crónica de uma morte anunciada nesta altura foi forçada por outra razão: o facto de a minha filha de 14 anos ter que ler o livro no âmbito da disciplina de Português de 9º ano. Assim, acabei por juntar o útil ao agradável – poder ajudá-la na análise ao livro e ter a minha primeira leitura de GGM.

Em O Labirinto dos Espíritos de Carlos Ruiz Zafón uma das personagens diz o seguinte «Na literatura só existe uma questão verdadeiramente importante: não o que se narra, mas como se narra. O resto é decoração.» Acho que este livro de GGM ilustra de um modo praticamente inequívoco esta frase de Zafón. Na minha opinião, a história verídica que serviu de base a este livro tem muito menos de surreal do que a maneira como GGM a conta. Veja-se que logo nas primeiras linhas é anunciada a morte do personagem principal, Santiago Nasar, e ao longo do livro esse acontecimento aparece como que suspenso por fios tão ténues que parece que não vai acontecer, tão absurdo o conjunto de factos e circunstâncias que permitiram a sua consumação.

Sobre este livro, GGM disse que conseguiu escrevê-lo exatamente como queria. Se o que GGM queria era um relato com capacidade de prender o leitor levando-o a acreditar que o inevitável não vai acontecer ao ponto de quase se sentir enganado no final, penso que o objetivo foi alcançado.   

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Vendo Lagos como um turista

Com um fim de semana pela frente em que posso dispor do tempo a meu bel-prazer, hoje de manhã abalei a caminho da Biblioteca Municipal. Talvez se fosse em qualquer outro fim de semana teria ido de carro para me despachar, mas hoje não havia pressas e o tempo também merece ser saboreado sem parcimónia, como aliás sinto tanta falta nestes dias de constante correria e atividade.

Assim, lá coloquei os auriculares nos ouvidos, liguei o rádio no telemóvel e pus-me a caminho, desfrutando do passeio com uma temperatura agradavelmente amena e que explica tão bem porque tantos ingleses, nórdicos, franceses e outros que tais escolhem este maravilhoso pedaço no sul da Europa para viver.

Chegado à Biblioteca, em poucos minutos tinha na mão o livro que fui requisitar. Ao regressar, em vez de fazer apenas o caminho de regresso, optei por tomar a direção da praia da Batata atravessando a muralha que circunda o centro histórico de Lagos por um arco debaixo do qual existe uma pequena capela construída no século XIV em honra de São Gonçalo que é o santo padroeiro da cidade de Lagos. Li a placa na parede que explicava precisamente isto, li outra placa ali perto que explicava a origem daquele arco e dei comigo olhando a estátua de Gil Eanes que estava apenas a cinquenta metros. Dirijo-me para o Forte Pau da Bandeira e olho o mal calmo e tranquilo, observo uma pequena lancha que vem rio abaixo seguindo na direção da Ponta da Piedade. Lá mais à frente uma embarcação de recreio atravessa a baía em direção ao Sotavento.

De repente apercebo-me de que estou a ver Lagos como um turista. Olho as construções, demoro-me a observar aquele mar imenso, bebo daquela luz difusa que abraça toda a cidade, sinto o calor suave emanado por um sol púdico que se escondia atrás de nuvens cúmplices da sua vergonha. Sinto-me hipnotizar por uma serenidade que apenas nos é transmitida pelas coisas belas e experimento mais uma vez, mas sempre como se fosse a primeira vez, a felicidade das coisas simples. 

Paixão pelo que se faz

Há uns dias atrás a minha filha de 14 anos, falando de Os Lusíadas, que está a dar na disciplina de Português, disse «Pai, já viste, Luís de Camões contou a História de Portugal tudo em poesia, em poemas de oito versos com dez sílabas cada um!»

Não consegui dissociar o tom de admiração com que a miúda disse aquilo da maneira calorosa, empenhada e apaixonada de dar aulas da Professora de Português deste ano, o que vem mostrar que no ensino, como em tantas outras coisas na vida, a entrega a algo nem sempre se traduz em resultados quantificáveis, mas não passa despercebida a quem a presencia.

É como comer comida em que o tempero fica aquém da pitada certa de sal. Está tudo lá, não falta nenhum ingrediente, mas falta algo para estar perfeito. É a diferença entre o bom e o excelente. É assim a paixão pelo que se faz. Como dizia Pessoa, por meio do seu heterónimo Ricardo Reis, «Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. // Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. // Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.»   

Filosofia e Harrison Bergeron

Há algum tempo atrás comprei um pequeno livro sobre Filosofia intitulado Filosofia em Directo editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e escrito por Desidério Murcho. Por meio deste livro tomei conhecimento do site Crítica na Rede e subscrevi a sua newsletter.

Agora recebi um email com um link para o conto Harrison Bergeron de Kurt Vonnegut. Estas são as primeiras linhas:

«Era o ano 2081, e toda a gente era finalmente igual. Não apenas perante Deus e a lei. Igual em todos os aspectos. Ninguém era mais inteligente. Ninguém era mais bem parecido. Ninguém era mais forte ou rápido. Toda esta igualdade era devida às 211.ª, 212.ª e 213.ª emendas constitucionais, e à vigilância incessante dos agentes da Direcção-Geral Incapacitante dos Estados Unidos.»

Não deixem de ler aqui o resto deste conto escrito há 57 anos atrás.  

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Não se encontra o que se procura


Título: Não se encontra o que se procura
Autor: Miguel Sousa Tavares
Editora: Clube do Autor
Nº de páginas: 266

SINOPSE

A escrita, a viagem, a memória, a vida fora da espuma dos dias, dentro da verdade, naquele momento de luz, onde as estações do ano convocam a sabedoria, a descoberta, o apelo do desconhecido, o instante em que tudo pode acontecer.

Nesta viagem fora do seu quarto, Miguel Sousa Tavares transporta-nos ao seu mundo mediterrâneo, ao sul de Portugal, à Croácia, a Roma, à Sicília, ao Brasil e aos lugares da História por onde passaram figuras gigantes. No regresso a casa, explica a razão da sua escrita. A sós, com as palavras, viaja para dentro de si para partilhar aquilo que só os grandes contadores de histórias sabem fazer, seguindo o lema: "Viajar é olhar".

Uma pergunta fica suspensa nas manhãs de Verão e nas noites de luar: Como é que se regressa quando não se sabe porque se partiu?


AS MINHAS OBSERVAÇÕES

Por vezes somos atraídos para um determinado livro sem sabermos explicar o porquê. Acho que foi isso que me aconteceu com este livro. Já tinha tido o livro na mão por diversas vezes e já tinha lido umas frases soltas cujo tom poético de Miguel Sousa Tavares (MST) até me agradou, mas nunca me tinha decidido pela compra do livro ou pela sua leitura. Talvez a promoção na Wook tenha sido decisiva para que este livro me chegasse às mãos definitivamente e penso que foi dinheiro bem gasto. 

No site da Wook este livro está catalogado como literatura de viagem, mas acho que esta classificação é um pouco redundante. Este livro tem algo de literatura de viagem, pois alguns capítulos consistem precisamente nas impressões do autor sobre sítios por onde viajou, mas é mais do que isso. Alguns capítulos consistem também num registo diarístico de MST em que este aborda assuntos vários. Em outros dois ou três capítulos MST fala sobre História. E ainda noutros fala sobre livros, a escrita e literatura.

Não se encontra o que se procura é um livro de registos, olhares, sentidos e prazeres em que as observações do autor demonstram como viajar é olhar e como não devemos deixar de fazer o que Saramago escreveu em Ensaio sobre a cegueira - se podes olhar vê, se podes ver repara. Neste exercício de olhar, ver e reparar, MST deixa-nos um livro leve com um certo tom poético que, tenho por certo, herdou da sua mãe, a poetisa Sophia de Mello Breyner.   

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Angústia de leitor

Frank Zappa disse "Tantos livros e tão pouco tempo". Pese embora não tenha a pontuação que a define como uma exclamação, penso que esta frase não pode ser outra coisa que não uma angústia exclamada pela boca de quem não consegue viver sem ler e gostaria de ter todo o tempo do mundo para ler os livros que quer ler. Não sei se era o caso de Zappa, mas é por certo o meu caso. E esta angústia tem momentos próprios, por vezes recorrentes, para se manifestar. Um desses momentos, e falo por mim, acontece quando termino um livro.

Quando termino a leitura de um livro, o que acontece entre vinte e trinta vezes por ano, fico perante a decisão sempre difícil de escolher qual o próximo livro que irei ler. E isto para mim não é algo isento de uma certa angústia, precisamente porque o tempo é escasso, sei que não viverei o tempo suficiente para ler tudo o que gostaria de ler, logo, como escolher bem qual deverá ser a próxima leitura?

Por um lado, não quero perder tempo com uma leitura que ao princípio pode parecer promissora mas que vem a revelar-se indigna do meu tempo - e para mim, toda a leitura que não me apraz é indigna do meu tempo! Por outro, não quero deixar de ler aqueles livros que, não sendo considerados grandes obras, são verdadeiras pérolas cuja leitura nos enche de deleite, mesmo que seja de uma maneira muito nossa.

Perante isto, como podem alguns não ver como é difícil a vida de leitor?